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À la recherche de moi
 


Queria colocar a foto permanentemente no perfil do blog, mas não sei se é possível. Se alguém souber, por favor, help me!!!



Escrito por daniela às 12h10
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"L'enfer c'est les autres", Sartre

"O inferno são os outros."

Nos fins de semana, para entrar na USP é preciso apresentar a carteira de estudante. O nome que nela ainda consta foi dado por minha mãe, mas não corresponde à minha pessoa.
A cada vez que vou passar pelo portão principal da USP tenho que pensar nas estratégias a serem adotadas para, pelo menos, tornar o constrangimento menor. Às vezes dá certo.

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Situation I: falsidade ideológica

Eu, tentando entrar a pé pelo portão de saída, onde não havia segurança. No entanto, o guarda do portão de entrada me vê passando, sai da guarita e vem até mim. A estratégia falhou.
- Carteirinha, por favor!
Entrego.
Ele a verifica atentamente e diz:
- Dessa vez vou deixar passar, mas você não pode entrar com carteirinha de outra pessoa.
- Ok.

**************************************
Situation II: a barraqueira

Eu, chegando de carro com amigos que não estudam na USP. Paramos na portaria.
- Carteirinha!
Entrego.
O guarda observa com atenção, olha para o documento, olha para mim e diz, atônito:
- Ué!
Respondo, ríspida:
- Ué o quê??
Ele tenta se recompor, a ficha parece não ter caído. Mas, diante de minha atitude, não se atreve a retrucar e diz:
- Não, nada, pode passar.

**************************************

Situation III: atração turística

Eu, chegando de carro com uma amiga que não é aluna da USP.
- Carteirinha!
Entrego.
O guarda pega a carteirinha, lê, leva o documento até a guarita, anota alguma coisa num papel e a carteirinha passa na mão dos outros guardas antes de voltar para a minha.

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Situation IV: primeiro de abril

Eu, chegando na garupa da moto de um fulano que estava conhecendo e que não era estudante da USP*. No caminho para a USP, já vinha arquitetanto uma estratégia para burlar a entrega da carteirinha.
Paramos a moto.
- Carteirinha!
- Ai, moço, estou sem carteirinha, mas moro no crusp, bloco tal, apartamento tal. Se quiser anotar, meu número-usp é tal. Se quiser ligar pro crusp pra confirmar, o número do telefone do meu bloco é tal.
- Não, não, tudo bem, pode passar.
O homem da motocicleta me pergunta:
- Você não anda com sua carteirinha?
- Não costumo andar porque já tive a carteira roubada com todos os meus documentos.


*sei que é preconceito o que vou dizer, mas normalmente ser estudante da USP (ou de alguma outra universidade pública) é um pré-requisito importante para mim. Mas, como a idade vai chegando, estou aos poucos me tornando mais flexível. Já estou admitindo candidatos que tenham pelo menos uma graduação, ou que estejam terminando o curso e que tenham planos de fazer o mestrado. A partir do ano que vem devo começar a aceitar os que tenham apenas o ensino médio.

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Situation V: sucesso

Parte I

Perto do portão principal da USP existe a "Banca do Portão". Sempre dou uma passadinha lá, seja para comer alguma coisa ou comprar uma revista.
Dia desses, muito quente, entrei.
Horário: passava da meia-noite.
Figurino: shorts e camiseta.
Dentro da banca: eu, o vendedor e um cliente.
O cliente não conseguiu ficar indiferente à minha presença. Eu consegui fingir que estava indiferente a ele (o que, aliás, não foi difícil).
Começa o papo entre cliente e vendedor:
Cliente:
- Então, rapaz, eu agora estou procurando uma namorada. Cansei, sabe. Agora quero coisa séria.
Segurei o riso.
Cliente (falando e olhando na minha direção):
- Essa vida de delegado, estressante, muito trabalho. Preciso descansar, encontrar uma mulher pra namorar.
Não lembro as respostas (se é que havia) do vendedor.
Paguei o que tinha comprado e saí. O cliente veio atrás de mim:
- Moça, você vai pra USP? Quer que eu te leve? Eu estou de carro.
- Não, obrigada. Vou a pé mesmo.
Ele continuou insistindo, ignorei-o e saí andando.

Passo pela portaria da USP. Todos os seguranças me cumprimentam, muito simpáticos e atenciosos. Não sei o que tinha nesse dia. Será que eles admiravam minha inteligência? Não pediram a carteirinha. Ah, lembro que estava chupando sorvete.

Um dos guardas, em especial, foi mais simpático que os demais. Tão simpático que pegou o carro da guarda e veio me oferecer carona até o crusp, já que o ônibus não entra na USP nos fins de semana e é preciso caminhar a pé da portaria até a moradia estudantil - uma boa caminhada, por sinal.
Parou o carro e disse:
- Entra aí, eu te levo.
- Não obrigada, já estou acostumada a ir a pé.
- Ah, entra aí vai. Não vai aceitar minha carona?
- Imagina. É que eu adoro andar a pé. Não precisa mesmo. (Estava morrendo de cansaço, era tarde da noite, mas sabe Deus como eu teria que retribuir a carona).
Atravessei a rua e continuei andando. Acho até que ele ficou chateado com minha recusa, pois no dia seguinte o encontrei novamente e ele me ignorou quando o cumprimentei na frente dos colegas que, no dia anterior, presenciaram toda a situação.


Parte II

Já tinha me livrado do guarda e continuava meu trajeto até o crusp quando, de repente, pára outro carro ao meu lado. Adivinha?!
- Moça, entra aí, eu te levo. É perigoso você ficar andando sozinha a essa hora aqui.
- Não, imagina, obrigada, eu gosto de andar a pé (morta de cansaço).
- Eu sou autoridade, vou te proteger, te levo.
- Não precisa mesmo, muito obrigada (já ficando com medo de contrariá-lo).
Coloquei meu fone de ouvido, continuei minha caminhada e, finalmente, consegui chegar em casa.

Será que o delegado tinha carteirinha da USP???


MORAL DA HISTÓRIA: não costumo aceitar carona de estranhos.


Escrito por daniela às 11h22
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"Aujourd'hui maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas". (L'étranger, Albert Camus)

"Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem. Não sei bem"

Neste post conto algumas passagens sobre o velório e enterro de minha mãe (ai que saudade dela) e também coloco alguns pensamentos.
Algumas pessoas estão perguntando se inventei alguma coisa: não, it's all true. Tudo o que está aqui aconteceu, para o bem ou para o mal.

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1

Ano passado tive que ir ao velório de minha mãe.
O café estava ótimo!

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2

O que mais me irritou foram aquelas pessoas comentando comigo ou entre si: "coitada....descansou!".

Descansou deles.

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3

Acho ótimo quando alguém diz: "não gosto de enterro". E quem gosta??

(Comentário feito numa conversa de amigos)

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4

O pior é que na minha cidade*, como nunca acontece nada, um velório ou enterro torna-se um evento. E muitos vão porque gostam.

*Cachoeira Paulista: 30 mil habitantes contando os da zona rural.

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5

Do fundo do meu coração, queria gritar praquela gente: "seu bando de hipócritas, que viviam falando mal dela e a tratavam mal, por que vocês não saem daqui e me deixam sozinha com ela?"

Me contive.

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6

Velório Municipal é péssimo. A gente não tem privacidade nem pra se despedir da pessoa que se foi, nem pra chorar, nada.

Preferia quando era em casa.

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7

O velório foi de madrugada; passei a noite lá.

Lá pelas 5 da manhã fui pra casa de minha tia dormir. Só voltei perto da hora do enterro.
Claro que me tornei a segunda atração do evento. Pessoas que não me viam há 15 anos ou mais não podiam sair de lá sem ver a filha transexual.

Pensando bem, depois que cheguei, acho que me tornei a primeira atração.

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8

Como não tenho o hábito de freqüentar velórios, não sei direito como me comportar, o que devo dizer. Ainda mais quando somos nós que perdemos alguém querido. A segunda pessoa mais importante da minha vida, perdi quando tinha 7 anos.

Depois do enterro, um primo veio me cumprimentar, provavelmente dar os pêsames - como se diz.

Quando ele estendeu a mão para mim, falei: "Oi, tudo bem?"

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9

Pelo menos os presentes me pouparam de ouvir aquela terrível frase: "Como era boa!"
Depois que morre, todo mundo vira santo.

Boa minha mãe não era. Quer dizer, só comigo e com mais duas ou três pessoas.

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10

O velório foi no sábado (24.02.07). No domingo à noite, após o enterro, fui à casa de uma prima e grande amiga. Seu marido, pedreiro, me perguntou: "E agora, o que vocês vão fazer com as terras?".

Nunca mais voltei em sua casa.

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11

Minha mãe faleceu um mês depois de minha cirurgia de readequação sexual*.
Não, não foi suicídio nem por desgosto.

Não deu tempo de lhe contar.


*Termo usado na medicina.

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12

Segundo relato da enfermeira que a encontrou morta no quarto do hospital psiquiátrico onde ela estava internada havia um mês, sua feição estava tranqüila.

Não deixa de ser um consolo.

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13

Era um sábado. O telefone tocou. Era minha prima: "Sua mãe faleceu. O enterro vai ser amanhã."

Resposta: "Tenho que ir hoje mesmo?". Tinha.

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14

Acho sábado um dia adequado pra morrer. Não atrapalha muito os outros compromissos.

Voltei a trabalhar na terça.

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15

O sonho de minha mãe era ser avó.

Seu neto nasceu 4 meses após sua morte.

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16

Será pecado desejar a morte da mãe para o seu próprio bem?

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17
Quando cheguei ao velório, lá estava meu tio - irmão de minha mãe. Não nos víamos há muito tempo. Veio até mim, me cumprimentou com um beijo no rosto, pensando que eu fosse talvez uma prima, uma parente qualquer.

Quando soube quem eu realmente era, não conseguiu mais conversar comigo.

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18

Até tentei chorar quando o caixão começou a ser fechado, mas não consegui.

Os presentes devem ter ficado chocados por isso, porque pobre (caso de minha família) costuma fazer muito escândalo em situações desse tipo.

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19

De madrugada, enquanto velava o corpo de minha mãe, ficava olhando pra ela. Seu rosto estava sereno. Vê-la nesse momento não me abalou tanto assim.
Parece que a ficha não tinha caído.

Os piores momentos foram o fechamento do caixão e a descida ao túmulo.
Foi então que me dei conta de que ela nunca mais voltaria.

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20

No dia 2 de novembro passado, dia de Finados, fui a minha cidade visitar o túmulo acompanhada de minha tia.

Nada senti.

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21

Minha mãe nunca se casou e seu sonho era, um dia, usar um vestido de noiva.

Toda vez que ia visitá-la externava esse desejo.

Uma vez me disse:

- Eu queria colocar um vestido de noiva e tirar umas fotos pra guardar de lembrança.

Eu respondia (com dor no coração): - Ah, mãe, que bobagem.

No fundo, queria muito ter realizado o sonho dela.

Na minha insanidade, quando a vi no caixão, cheguei a pensar em enterrá-la vestida de noiva.

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22
Horas depois do enterro, uma de minhas queridas tias veio me dizer:

- Sua mãe deixou uma dívida de umas roupas que ela comprou na loja do Jarbas. Você não acha melhor pagar, pelo menos para o nome dela não ficar sujo e o Jarbas receber o dinheiro dele?

- ?

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23

Das 3 irmãs, minha mãe era a que mais temia a morte.

Morreu primeiro.

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24

Minha tia queria fazer para minha mãe um desses consórcios funerários - será que tem sorteio de caixão?

Minha mãe jamais aceitou. Detestava falar em morte e considerava agourento quem falava disso.

Incluindo traslado (já que morrera em outra cidade) mais obséquias do enterro, foram mil reais.

Terminei de pagar este ano.

Será que tem desconto no imposto de renda?


Escrito por daniela às 11h18
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